Resenha: Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus

 

    Gênero: Autobiografia, Biografia

    Autor: Carolina Maria de Jesus

    

   Se me perguntassem qual era a religião da Carolina Maria de Jesus, eu responderia que era a literatura.


       " Acordei, dei comida para as crianças, fui catar papel, li um pouco ..., sentei para escrever. "


     Não vou mentir, minha garganta se enrolava até formar vários nós enquanto eu lia esse livro. Haviam vezes em que ficava pensativa demais, fraca demais para lidar com aquele misto de letras nos papéis.


      Carolina mostra que a favela é um lugar cujas crianças estão fortemente expostas à delinquência, p0rnografia, vi0lência, estupr0, gravidez não planejada. É um lugar cujos ricos gostam de gravar, mas jamais viver. É um lugar cujos políticos se mostram benevolentes em vésperas de campanha eleitoral. É um lugar marginalizado, jamais apreciado. É um lugar onde padres pregam mais sobre multiplicar a terra, mesmo sem condições. É um lugar onde a fome faz morada. Favela é um quarto de despejo. Quem dá importância à um quarto de despejo?

  

      A palavra fome é a palavra que mais se repete aqui, como disse a Carolina: tontura do álcool nos impede de cantar, mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.


    Tenta dormir porque tem fome, mas não forme porque tem fome.


       A parte mais triste é que este não é um livro de ficção, é realidade, dolorosa realidade de uma mulher que passa muita fome, que se alimenta de comida que encontra no lixo, que revende coisas que encontra no lixo e lida com todo o drama da vizinhança, realidade de uma mulher que vê o mundo a cair em peças quando as crianças choram por fome.


    A incógnita que ela tem quando ganha um pouco de dinheiro é: o que eu compro com esse dinheiro? Se comprar sabão, não compra comida; se não compra comida, não come; se não come, dorme com fome. Se comprar comida, não compra sabão; se não compra sabão, não lava roupa; se não lava roupa, não anda limpa.


      Carolina, uma poetisa e escritora nata, dona de uma consciência de classe invejável, ela escreve diariamente sobre os seus dissabores, faz prosa com a miséria da favela e procura por alguém que lhe ajude a publicar o seu livro.


      15 de julho de 1955 à 1 de janeiro de 1960

    

    Sobre a fome, ela não é relativa e a Carolina provou isso.


     Esse livro é muito necessário, muito mesmo. Receio ter dado spoiler, embora dessa vez eu realmente não queira, no entanto, leiam, por favor!



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